Dados mascarados pela pandemia podem matar mais mulheres no Brasil

A dificuldade de acesso às Delegacias, por conta da ordem de isolamento social, pode estar mascarando os números de violência contra as mulheres que são obrigadas a se trancarem junto com seus agressores.



Diante da pandemia do novo coronavírus, o que mais temos visto são questões sobre o Covid-19, até por que esse vírus gerou uma grande crise mundial. A vida de muita gente foi afetada e a incerteza e insegurança de como as coisas ficarão é muito grande.


Como forma de contenção da disseminação do coronavírus, medidas como o isolamento social passaram a ser adotadas no Brasil e em vários lugares do mundo. A recomendação da OMS foi seguida por diversos líderes de governos. Mas, diante dessa situação e necessidade do isolamento, muitos têm esquecido temas e situações tão importantes e preocupantes como o feminicídio e a violência doméstica. Para muitas mulheres vítimas de violência doméstica e que são agredidas, espancadas e mortas, pelo simples fato de, apenas, serem mulheres, ficar em casa não é, somente, não estar sujeita ao contágio do Covid-19, mas também, estar sujeita ao risco de vida, pois é no próprio lar que muitas mulheres correm perigo. Após o isolamento, as denúncias de violência doméstica aumentaram 17% no Brasil.



A ministra Damares Alves confirmou que “a situação de isolamento eleva o risco de violência. Acreditamos que o apoio dos vizinhos seja fundamental, para interromper situações que podem levar ao feminicídio”.


No dia 06 de abril, o Chefe da ONU, António Guterres, pediu medidas para combater o aumento global da violência doméstica contra mulheres e meninas, em meio ao isolamento social.


Um relatório publicado pela ONU Mulheres, em 2018, declarou na época que os países da América Latina são os locais mais perigosos para as mulheres no mundo. São cerca de três feminicídios por dia e estima-se que o número pode aumentar, tendo em vista que os atritos dentro de casa, o problema econômico e os temores sobre o coronavírus, tendem a aumentar a violência sofrida pelas mulheres.


O Brasil é o país com o maior número de casos, registrando cerca de três casos por dia. No Brasil, a cada sete horas, uma mulher é vítima de feminicídio. Dos 3.739 homicídios de mulheres em 2019, 1.314 foram caracterizados como feminicídio.


Em 2019, os homicídios femininos apresentaram redução de 14%, mas, a redução dos homicídios femininos não significa diminuição da violência doméstica.


"A queda no número de homicídios femininos não significa, necessariamente, a diminuição da violência doméstica e intrafamiliar. Meninas e mulheres são diariamente vítimas de violência baseada em gênero, dentro de casa, por pessoas conhecidas e em circunstâncias ainda muito toleradas socialmente na cultura brasileira. A naturalização de comportamentos violentos e a precariedade dos dados disponíveis contribuem ainda mais para a invisibilização das vítimas que sofrem em silêncio", afirmam Samira Bueno e Juliana Martins, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.


Em 2013, a Associação de Mulheres contra a Violência elaborou quadro de fatores de risco com base nos documentos internacionais reconhecidos e validados cientificamente. Dentre os fatores, adaptam-se a presente situação de pandemia.


FATORES DE RISCO DE VIOLÊNCIA, aplicáveis à situação de PANDEMIA do COVID-19:


• Isolamento da vítima: “A vítima/sobrevivente fica mais vulnerável se estiver isolada da família, dos(as) amigos(as) e das suas redes sociais. O isolamento não é apenas geográfico e aumenta a probabilidade da ocorrência de violência”.


• Consumo de álcool ou drogas ilícitas: “O consumo de drogas ilícitas, álcool ou medicamentos, pode condicionar as consequências sociais dos indivíduos e aumentar o risco de violência na família. Isto inclui drogas que induzem a psicoses temporárias”.


• Comportamento controlador: “O agressor pode controlar totalmente todas as atividades da vítima/sobrevivente... os homens que consideram que devem ser eles a mandar têm maior predisposição para usar vários tipos de violência contra suas companheiras”.


• Desemprego: “O desemprego está associado ao aumento de risco de uma agressão letal. A mudança súbita do nível profissional, fim do vínculo laboral ou rebaixamento de cargo podem aumentar o risco”.


Esses são fatores de risco constantes do Manual para profissionais de Portugal: Avaliação e Gestão.



Na Bahia, houve um aumento de 54% no número de denúncias que foram realizadas entre março e abril, segundo dados do disque denúncia do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. No mês passado, foram registradas 95 denúncias de violência doméstica contra 146, até o dia 19 deste mês de abril.


No Rio Grande do Sul, o aumento foi de 73,3%. O estado, segundo dados que foram divulgados pela Secretaria de Segurança Pública, registrou 26 casos no número de mortes entre janeiro a março deste ano.



Em São Paulo, o número de casos durante a pandemia aumentou 44,9%. O Ministério Público do estado afirmou em nota que “a casa é o lugar mais perigoso para uma mulher. A maioria dos atos de violência e feminicídios acontecem justamente em casa. Nesse sentido, a pesquisa Raios-X do Feminicídio, em São Paulo, revelou que 66% dos feminicídios consumados ou tentados foram praticados na casa da vítima”. A situação causada pelo coronavírus tem sido um obstáculo para as vítimas conseguirem formalizar uma denúncia às autoridades policiais. Como forma de simplificar, o estado de São Paulo, agora, permite que as vítimas prestem queixa, através de um formulário que é preenchido via Delegacia Eletrônica.


A promotora de Justiça Maria Gabriela Manssur, conhecida por seu trabalho de combate à violência doméstica, em conversa com o apresentador JP Vergueiro, falou um pouco sobre o assunto e explicou como as vítimas podem denunciar as agressões.


A violência contra a mulher é um problema global. Em países como a China, França, Espanha e Itália, também foi registrado o aumento no número de ocorrências, após o início do isolamento. No dia 7 de abril, o veículo oficial da ONU Mulheres noticiou que autoridades, ativistas dos direitos das mulheres e membros da sociedade civil da Argentina, Canadá, França, Alemanha, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos, têm reportado aumento nas denúncias de agressões contra mulheres e na demanda por abrigos de emergência.


Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 1267/20, que visa ampliar, durante a pandemia, a divulgação do Ligue 180, disque-denúncia do governo federal. De autoria de 13 parlamentares do PSOL, PT, PDT, Rede, DEM, PSB, MDB, Pros e PCdoB, a proposta é de se veicular um anúncio sobre o canal em "toda informação que se exiba por meio dos serviços de rádio e televisão aberta, programação audiovisual, notícias divulgadas na internet em portais, blogs e jornais eletrônicos, sejam de acesso gratuito ou pago, sobre episódios de violência contra a mulher".



Ressaltamos aqui a importância da denúncia por parte das vítimas e dos vizinhos que devem prestar queixa das agressões. Não se omitam, não permitam que mulheres continuem sendo espancadas, violentadas e mortas dentro do seu próprio lar. Denuncie, ligue para o 180 e formalize a denúncia. O número está disponível 24h por dia, todos os dias da semana, incluindo finais de semana e feriados.

Siga-nos em nossas redes sociais

  • Facebook - Grey Circle
  • Twitter - Grey Circle
  • YouTube - Grey Circle
  • Instagram - Grey Circle

Notícia

Desenvolvido por

© 2018-2019. Todos os direitos reservados.

CaJú Publicidade Ltda

CNPJ: 21.107.640/0001-75

Marca_CaJú_PNG.png

Av. Flaviano Guimarães, 333, Cajueiro, Juazeiro-BA, 48904-087